"Ser criativo nem sempre é inovar, às vezes significa olhar para trás e trazer o conhecido de forma inesperada." - Alex Atala
“Nothing is more interesting than that something that you eat.” - Gertrude Stein - Gastronomica-The Journal of Food and Culture
Mantemos um senso comum com relação a higiene medieval que generalizou-se como verdade, porém as pessoas na Idade Média se banhavam sempre que possível e tentavam se manter limpas.
Hoje como antigamente o cuidado com a limpeza na cozinha e na higienização dos alimentos é um procedimento de extrema importância: lave bem as mãos antes de usar a cozinha; limpe os utensílios que irá usar, peças de equipamentos e local de trabalho; higienize corretamente dos vegetais - legumes, hortaliças e frutas. E NÃO lave as carnes.

sexta-feira, abril 08, 2016

VINAGRE DOS QU4TROS LADRÕES

Le vinaigre des quatre voleurs est une macération dans du vinaigre 
de plantes aromatiques et médicinales à propriétés antiseptiques.

Pieter Bruegel,“O Velho” - O Triunfo da Morte, 1562/1565
117x162 – Museu do Prado – Madri - Espanha

PLANTAS E ERVAS

Em Bizâncio (Istambul) no Oriente, ALEXANDER DE TRALLES escreveu Le Grand Traite composto por doze livros sobre vários temas tais como doenças da cabeça, boca, coração, vermes intestinais ... Foi inspirado por Traite De Matiere - 10 Medicale de Dioscoride. No século VI foi um dos primeiros médicos a oferecer vinagre com bulbos açafrão-do-prado para tratar a gota.

No Ocidente a medicina era praticado por monges que a viam como um ato de misericórdia mais que uma disciplina intelectual. No século VIII, Carlos Magno, promulga o Capitulaire de Villis e impõe a cultura de 94 plantas.

É o desenvolvimento de hortas medicinais em mosteiros. Alguns mosteiros estavam recebendo manuscritos romanos, e os copistas copiaram dando inicio a difusão da medicina monástica. No século IX os simples jardins vão surgindo para em seguida, segurando o conhecimento e as plantas medicinais, os monges tornam-se avalistas da medicina. As mulheres também praticavam. A mais famosa delas é a abadessa Santa Hildegarde de Bingen, que fundou uma escola de irmãs de enfermeiras e muitos mosteiros. O desenvolvimento da medicina do século XI, saindo da esfera religiosa, se faz com a fundação da Escola de Salerno (Itália) que abriga um jardim botânico e da Faculdade de Medicina de Montpellier acolhendo estudiosos judeus e árabes. A bacia do Mediterrâneo é agora o pilar do conhecimento médico.

Em 1241, o edital de Salerno promulgada por Frederick II, Rei de Nápoles e Imperador da Alemanha, separou definitivamente a profissão de Médico e Farmacêutico ("boutiquier", em latim).

Em 1343, a peste acelerar a separação entre religião e medicina. Os mosteiros já não é suficiente para acomodar e atender todos os pestilentos. Surgem as estruturas laicas de atendimento. A religião abandona finalmente o seu interesse pela medicina, vendo a como prejudicial.

FONTE: THESE présentée par CAZAU-BEYRET, Nelly - DOCTEUR EN PHARMACIE: PRISE EN CHARGE DES DOULEURS ARTICULAIRES PAR AROMATHERAPIE ET PHYTOTHERAPIE

HISTÓRIA

O ano, a cidade, assim como o número de assaltantes e os ingredientes da composição da solução, estão sujeitos a várias interpretações. O periodo é geralmente entre os séculos XIV e XVIII, e são frequentemente citadas as cidades de Marselha e Toulouse.

Conhecido na cultura popular européia, principalmente na França, o Vinagre dos Quatro Ladrões possui muitos mistérios e lendas a respeito. É dito que pode curar pragas, doenças, e criar proteção para qualquer tipo de problema ou sortilégio.

Villi_de_Tholose_1631
Foi em Toulouse, no decurso da terrível segunda epidemia de peste que, entre 1629 e 1652, que devastou a cidade, que este Vinagre fez a sua aparição, como rezam os registros do Parlement Toulousain.

A peste em Marseille desembarca vinda de Levante (Síria) em 1720 e foi o último surto da epidemia de peste registrado em Francia, porém não menos devastadora. Os ladrões marselheses imitaram os seus congêneres de Toulouse. Presos, para também salvarem as vidas, revelam aos magistrados de Marselha o seu segredo com a garantia da sua palavra de serem poupados. Redescoberta no museu da Velha Marselha, a fórmula da poção por eles usada pouco diferia da revelada pelos ladrões de Toulouse. Convencido da eficácia da fórmula, o corpo médico adotou-a, com algumas alterações, nomeadamente com a adição de Canela e Alho. 

A PESTE

Durante a Idade Média, a Peste Negra na realidade uma pandemia de peste bubônica altamente contagiosa, provocada pelo bacilo de Yersin (Yersina pestis - Pasteurella pestis) era compreendida como algo de sobrenatural, certamente saída das profundezas do Inferno. Sabemos que a peste era transmitida ao homem pela picada da pulga infestada nos ratos-pretos. Podia ser haver contagio inter-humano direto, por meio da saliva e por contato com sangue, pois os enfermos tinham tumores negros sob os braços que vertiam pus e sangue. Os doentes sofriam terrivelmente e morriam por volta de cinco dias. Num estagio avançado da proliferação da doença, para além das vesículas que apareciam por sobre os tumores, outros sintomas começam a aparecer: febre contínua e escarros de sangue como evolução da peste resultando em dois tipos de doenças, uma pulmonar e uma septicêmica. As novas vítimas tossiam, transpiravam abundantemente e morriam mais depressa, sem antes disseminar o vírus no ar.

VALA COMUM – Poveglia - ITALIA
Sabemos que as causas estavam relacionada a inadequação das estruturas rurais e urbanas para atender as novas demandas em termos de saúde e higiene públicas, mas na época ninguém suspeitava de outra coisa que não fosse o diabo, as bruxas ou ainda, que a peste fosse um castigo de Deus pelos pecados dos homens. Curiosamente, a Igreja Católica se aproveitou da epidemia para consolidar o seu poder no mundo medieval. 

Para evitar o contágio, todos os infelizes que mostravam sintomas da peste eram obrigados a usar um sino ao pescoço, de forma a anunciar a sua presença - assim, as restantes pessoas podiam fugir e pôr-se a salvo. Para identificar as casas infectadas ou suspeitas, cruzes vermelhas eram pintadas nas portas dos domicílios para que nelas ninguém entrasse.

Assim, a cidade de Veneza contava com leis bastante estritas de saneamento e, embora na época as pessoas ainda não entendessem como as doenças eram transmitidas, elas tinham noção de que era necessário isolar os doentes (lazarettos) para evitar epidemias.

Em janeiro de 1348, a epidemia atinge a França, pelo porto de Marselha, vinda de Caffa. Neste ano, França, Espanha e Itália são assoladas e no meio do ano a Suíça e Inglaterra são atingidas. A mortalidade durava de quatro a seis meses e depois desaparecia nas pequenas localidades e diminuía a intensidade nos grandes centros, pois a população vivia amontoada e sem sanidade. A peste bubônica assolou a Europa por cerca de 600 anos, até o final de 1700 exterminando quase a metade da população européia.

As conseqüências sociais, demográficas, econômicas, culturais e religiosas dessa grande calamidade que se abateu sobre os povos da Ásia e da Europa, foram colossais. As cidades e os campos ficaram despovoados; famílias inteiras se extinguiram; casas e propriedades rurais ficaram vazias e abandonadas, sem herdeiros legais; a produção agrícola e industrial reduziu-se enormemente; houve escassez de alimentos e de bens de consumo; a nobreza se empobreceu; reduziram-se os efetivos militares e houve ascensão da burguesia que explorava o comércio e queda de mão de obra em toda a Europa. Isso fez com que trabalhadores pedissem maiores salários. No fim do século XIV revoltas de camponeses aconteceram na Inglaterra, França, Bélgica e Itália que já haviam passado pela devastação. A doença também cobrou sua dívida na igreja. O poder da Igreja se enfraqueceu com a redução numérica do clero e houve sensíveis mudanças nos costumes e no comportamento das pessoas. Pessoas durante a era cristã rezavam com devoção para serem poupados pela Peste Negra e se perguntavam: por que suas preces não foram atendidas?

A LENDA

Contudo, havia um grupo de quatro ladrões que tinham a audácia de invadir as casas dos moribundos, e roubar tudo o que queriam, permanecendo, de uma forma sobrenatural, imunes à epidemia, à peste, ao diabo e a tudo.

Ninguém se atrevia a tocar nos cadáveres, mas eles praticavam uma série de roubos, e ninguém se atrevia a opor-se aos roubos por eles cometidos. Presos e torturados, os bandidos confessaram o segredo que os protegia contra a peste. Os quatro ladrões admitiram que o vinagre fosse confeccionado segundo certos preceitos ocultos, que faziam determinadas orações e que, por fim, bastava lavarem-se com essa poção mágica para manter a imunidade contra todos os males, permanecendo, assim, intocados pela Peste podendo desenterrar os túmulos sem medo de serem contaminados. Depois, como se refere friamente o registro da ocorrência, "foram enforcados".

Na época, acreditava-se então que esta poção era simplesmente obra do demônio, de bruxaria negra, que estava a proteger ladrões, mas após muito tempo, Jean Valnet (1920-1995) doutor francês em aromaterapia deixou escrito no livro L'aromathérapie, traitement des maladies par les essences des plantes, editado em 1964, uma receita que supostamente seja a original do Vinagre dos Quatro Ladrões. Não se pode ter certeza a respeito da veracidade, pois esta lenda é muito antiga e não sobrou nenhum exemplar "real" do então vinagre utilizado pelos ladrões.

O Vinaigre des Quatre Voleurs foi registrado no Pharmacopée Française em 1748 e vendido em farmácias como anti-séptico, que só viria a desaparecer na sua edição de 1884.

POÇÃO

Vinagre XVII
Esta poção, apesar de existirem diversas variações da receita dita original consistia basicamente em vinagre em que eram maceradas várias ervas muito populares e aceitas como sagradas.

INGREDIENTES

O poderoso Alho (Allium sativum) surpreendentemente não consta da receita original, mas sempre foi o principal ingrediente em muitas que posteriormente foram criadas pelas suas propriedades antimicrobianas. Podemos encontrar Alfazema/Lavanda (Lavandula angustifolia), Arruda (Ruta graveolens), Hortelã (Mentha piperita), Menta (Mentha spicata) e Segurelha (Satureja Montana) que aparecem em algumas receitas talvez substituindo algumas das ervas (quem sabe por serem muito regionalizadas e devido à sazonalidade)

Original Recipe for Four Thieves
3 pints white wine vinegar
Handful wormwood
Handful meadowsweet
Handful juniper berries
Handful wild marjoram
Handful sage
50g cloves
2 oz. elecampane root
2 oz. angelica
2 oz. rosemary
2 oz. horehound
3 g camphor

Receita original para Quatro ladrões

1.400 ml Vinagre de vinho branco
Punhado Absinto (Artemisia absinthium)
Punhado Ulmeira (Filipendula ulmaria)
Punhado Bagas De Zimbro (Juniperus communi)
Punhado Manjerona Silvestre (Thymus mastichina)
Punhado Sálvia (Salvia L)
50 g. Cravinho (Syzygium aromaticum)
60 g. raiz Erva-Campeira (Inula helenium)
60 g. Angélica (Angelica L.)
60 g. Alecrim (Rosmarinus officinalis)
60 g. Marroio (Marrubium vulgare)
3 g. Cânfora (Cinnamomum camphora)( C10H16O)


PREPARAÇÃO

Coloque todas as ervas, anteriormente picadas, em uma garrafa ou em um pote grande. Cubra com o vinagre de maça, vinho ou cidra (um dedo ou dois acima) e deixe marinar (tapado) por no mínimo cinco dias. O tempo ideal é de sete a dez, mas se tiver pressa, pode deixar no mínimo cinco. Menos do que cinco dias, o vinagre não possuirá as mesmas propriedades, e as ervas não terão transmitido o efeito desejado. Evite deixar no sol, ou em temperaturas muito quentes, tanto na preparação quanto no armazenamento após estar pronto, mas também não o coloque na geladeira. A temperatura ideal é a ambiente. Deve ser utilizada apenas para uso externo, visto que algumas ervas não serem comestíveis.

ATUAL

Atualmente sabemos pela fitoterapia que o vinagre (vinho azedo ou agre) e muitas destas plantas usada nesta poção são desinfetantes, anticépticos, antibactericidas e antivirais, além do composto repelir e inibir eficazmente a proliferação das pulgas transmissoras de doença. Porém, o que agora compreendemos a luz da ciência era um prodígio para o homem arcaico. Por outras palavras, o que para nós não passa de um desinfetante esteve, durante muitos séculos, no domínio do sagrado. Na verdade, o Vinagre dos Quatro Ladrões continuou sempre a ser utilizado magicamente, para proteção contra males físicos e espirituais, para repelir maldições, para afastar invejas, azares e mal olhado, para proteção contra bruxaria, todo tipo de negatividade e perigos que pudesse afetar a vida das pessoas.

Ainda hoje continua a ser muito utilizado para todos estes objetivos..

Como toda crença há um “modis operantis” a guisa de receita:

• Pode ser utilizada para ungir velas para cura à distância e direcionar a energia para expulsar uma doença de alguém

• Para limpeza da casa: dissolver 200 ml do vinagre em meio-balde de água e lavar o chão.

• Para limpeza da aura e proteção contra negatividade: colocar o vinagre nas mãos molhadas e esfregar o rosto, o pescoço, os antebraços e as pernas.

• Para banhos de alívio: dissolver 100 ml em 3 litros de água morna e banhar o corpo do pescoço para baixo.

• Para repelir intrusos e visitas indesejadas: dissolver 1 colher de sopa de sal grosso em 2 colheres de sopa de vinagre e salpicar na soleira da porta.

Já que falamos em sortilégios, rituais e esconjuros vamos abordar um contexto oculto da aplicação do Vinagre dos Quatro Ladrões.


Os esbaths são comemorações menores que os sabbats e são rituais voltados para uma Deusa, em seu aspecto lunar:

LUA NEGRA – A Transformação - Deusa Negra – para cura psíquica, libertação de maus fluídos e mudanças
LUA NOVA - A Criação - Deusa Jovem - bom para feitiços relacionados a mudanças, na sua vida.
LUA CRESCENTE - O Amadurecimento - Deusa Donzela - relacionada a mudanças positivas, sorte, amor e crescimento
LUA CHEIA – A Força - Deusa Mãe - para aumentar a habilidade psiquica e fertilidade.
LUA MINGUANTE – A Morte - Deusa Anciã - para acabar e destruir coisas que te atrapalham e para acabar com doenças

NOTA IMPORTANTE

Existem várias versões do Vinagre dos Quatro Ladrões, incluindo alguns vinagres para tempero de alimentos. Porém, o mais fiel ao original não deve, de forma alguma, ser ingerido. A receita original contém várias plantas tóxicas e, ainda por cima, em quantidades bastante generosas. Para não correr riscos, nunca prepare este vinagre para alimentação utilizando uma receita de fonte duvidosa. Da mesma forma, deve certificar-se que o Vinagre dos Quatro Ladrões é próprio para consumo se, porventura, o encontrar à venda como tempero.

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