"Ser criativo nem sempre é inovar, às vezes significa olhar para trás e trazer o conhecido de forma inesperada." - Alex Atala
“Nothing is more interesting than that something that you eat.” - Gertrude Stein - Gastronomica-The Journal of Food and Culture
Mantemos um senso comum com relação a higiene medieval que generalizou-se como verdade, porém as pessoas na Idade Média se banhavam sempre que possível e tentavam se manter limpas.
Hoje como antigamente o cuidado com a limpeza na cozinha e na higienização dos alimentos é um procedimento de extrema importância: lave bem as mãos antes de usar a cozinha; limpe os utensílios que irá usar, peças de equipamentos e local de trabalho; higienize corretamente dos vegetais - legumes, hortaliças e frutas. E NÃO lave as carnes.

IDADE MÉDIA

O período da história humana ocidental conhecido como Idade Média compreende, numa metodologia cronológica didática, da queda do Império Romano do Ocidente à Renascença. É um período de mais de 1000 anos em que se consolidou muitos elementos da atual cultura ocidental.

No século III, o império romano já não conseguia mais sustentar sua unidade. Enquanto isso o cristianismo abarcava cada vez mais adeptos fervorosos e crescia de maneira espantosa. Os povos que os romanos consideravam como bárbaros não só ameaçavam os limites do império como seu interior. Com constante proximidade que mantinha com das outras culturas, ocasionada pela vasta extensão do império, Roma estava decisivamente perdendo sua identidade cultural. Isso porque a medida que o império ia crescendo, a diversidade cultural que o compunha também crescia, fazendo com que o império romano, aos poucos, fosse perdendo sua identidade cultural. Ou seja, os romanos, a medida que iam conquistando, eram também conquistados. No núcleo, o império romano começava a formar uma identidade mais germânica.

Nos seus momentos finais a diversidade cultural que abrangia o império romano em decadência era grande demais para sustentar uma unidade social. A economia romana estava em ruínas, a política completamente degenerada e com seu império falido ainda procurava sustentar luxúria. O mundo ocidental se desorganiza completamente sem a tutela romana, empobrece drasticamente e, com o tempo, acaba perdendo muito do conhecimento produzido pela Antiguidade.

Com toda essa crise no império romano, a assimilação do ideal de solidariedade contida na fé cristã não é de se admirar. Não somente o povo estava adotando o novo deus cristão e seus ideais, como os governantes começavam a ver no cristianismo a saída para a profunda crise. Acreditavam que, trocariam o destino, segundo LeGoff (ibid., p. 21) “ao trocar os deuses tutelares, pelo Deus novo dos cristãos”. Foi o que o imperador Constantino I fez com a assinatura do Edito de Milão em 313, que proclamava o cristianismo como uma das religiões oficiais do império romano. Mas o cristianismo, sendo monoteísta, não admitia outras crenças e em pouco tempo, tomou conta do império romano. No governo de Teodósio I, ainda no século 4, a religião cristã tornava-se a religião única e oficial do império romano.

A terminologia Medium Tempus (Idade Média) foi cunhada no século XIV por Petrarca e outros humanistas italianos e, posteriormente, a partir do século XVI, desenvolveu-se mais amplamente entre intelectuais alemães e franceses para designar um período que constituiria uma idade intermediária entre a Antiguidade e o futuro que estava à porta, a renascença. Claramente, apesar de já muito difundido e constantemente utilizado, o termo Idade Média carrega em si uma dose de preconceito e desconhecimento perante um magnífico período da história da humanidade.

Considerada, durante muito tempo, e ainda hoje por muitos como um período de decadência cultural, intelectual e artística, conforme critica o historiador Christian Amalvi (2002, p. 539) “uma interminável noite que os raios de sol do século XVI enfim dissiparam”. A Idade Média está repleta desse tipo de preconceitos que o humanismo renascentista, o iluminismo e o racionalismo desenvolveram e que, a literatura, o cinema e uma grande quantidade de professores despreparados ajudaram a propagar. A Idade Média acaba sendo apresentada como um tempo obscuro, de escuridão, ignorância e barbárie, no qual o conhecimento da Antigüidade era escondido e mantido em completo segredo pela Igreja, que, aliada a nobreza se esforçava para manter a população na mais completa ignorância, a fim de mantê-la sob controle. Mesmo quando a historiografia atual desmistificou esses preconceitos e ilusões referentes à Idade Medieval, comprovando os absurdos acerca do que é dito sobre o período, eles ainda permanecem enraizados em nossa sociedade, aliado à, principalmente professores mal preparados, dispostos à, simplesmente reproduzir o que lhe foi passado.

De maneira alguma a Idade Média pode ser rotulada como um tempo obscuro e de ignorância. O período, por muitos apelidado de Idade das Trevas foi, na realidade, um momento de profunda produção cultural, uma época de diálogos, entre o passado destruído e o presente que necessitava ser construído.

Através dos novos métodos, de novas fontes e das novas interpretações historiográficas, a Idade Média deixou de ser o período obscuro que outrora representava para se tornar uma valiosa fonte da história da humanidade, onde, mesmo sobre as mãos apertadas do cristianismo e sob os mais complicados paradoxos, reinava o profundo desejo pelo saber e pela cultura.

Esse Ocidente Medieval, malgrado por muitos no passado, certamente não é um momento de atraso ou estagnação intelectual. Ele é, sem dúvida, um momento de profunda produção cultural, de movimento e contemplação, e jamais estagnação. 

Iniciando em uma fase onde a gramática dominava a produção intelectual, pela própria necessidade de preservar o legado da Antiguidade  passando por um período que a ênfase era dada à dialética até que a filosofia se torne a base de investigação intelectual e culmine na scientia experimentalis de Francis Bacon, a intelectualidade medieval era, claramente um prelúdio ao pensamento moderno pensamento científico. 

A Idade Média é um paradoxo, um constante diálogo entre a fé e a razão, entre a Antiguidade clássica e o cristianismo, entre a violência e a compaixão, entre a divindade e o homem. Procurando solucionar as questões que lhe eram postas através dos paradoxos que vivia, a Idade Média produziu uma grande quantidade, não só de produções intelectuais, mas de instituições culturais, sob as quais ainda dependemos. Foi o período medieval, se é que se pode chamá-lo assim, que produziu as instituições que apoiamos a criação intelectual e cultural do mundo contemporâneo, a escolas e a universidade. 

Observando a história mais de perto, não é difícil perceber como mundo ocidental como o conhecemos está completamente enraizado na Idade Média. Podemos considerá-la não só como a base do mundo ocidental, mas como a infância do mundo moderno.

Hoje, observar a Idade Média é um apaixonante encontro com a infância de nossa própria sociedade. Encontramos um mundo onde outrora era visto como um tempo obscuro, de escuridão, retrocesso, ignorância e barbárie e que hoje, nas portas de um novo milênio, se abre para nós como um vitral multicolorido, repleto de paixão e intelectualidade em tons azuis e vermelhos.

Instituto Grupo Veritas de Pesquisa em História e Antropologia.
Por Rossano Carvalho Nunes

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